Um designer de sandálias

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No último dia 4, Alexandre Wollner faleceu em São Paulo, aos 90 anos incompletos.
Ainda ao final de março, o vi de longe na Casa Santa Luzia, magnífico empório de produtos alimentícios na Alameda Lorena, São Paulo, onde costumava ir aos sábados pela manhã. Esse teria sido mais um dos encontros acontecidos entre ele e eu, naquele mesmo lugar, e que começava mais ou menos assim, em sua fala jocosa – “e aí, falando muito mal de mim ultimamente?” – ao que seguia uma gargalhada! Éramos sempre assim, cordiais debatedores, fosse em público ou privadamente, embora a frase fosse distribuída a outros interlocutores seus. Alexandre parecia divertir-se com a ideia de ser espécie de mal-dito – o bom humor, atravessado por certa ironia, um de seus traços.

Conheci Alexandre Wollner em 1965, ele como professor na Escola Superior de Desenho Industrial, então recém-inaugurada, eu em meu primeiro ano de curso, e no início de 66, já lhe fazia uma visita em São Paulo, à Planegraphis, na rua Augusta, tipografia de que era sócio.
Sendo um dos integrantes do grupo que inaugurou o ensino de design na Esdi, aqui permaneceu até início dos anos 1990.

Nascido em São Paulo em 1928, filho de imigrantes iugoslavos, Alexandre iniciou-se nas artes por curiosidade. Mas foi junto à manifestação da arte concreta no Brasil que começou a melhor se situar, após uma juventude razoavelmente desorientada no início dos anos 1950, em suas próprias palavras. Por via indireta, o suíço Max Bill abriu-lhe as portas para um novo entendimento sobre as artes plásticas. Por uma eventualidade, foi estudar no local mais inovador do ensino de design à época, a Hochschule für Gestaltung (HfG – Ulm/Alemanha). Em 1953, Bill ofereceu uma bolsa a Geraldo de Barros que, não podendo viajar, cedeu lugar a Wollner, por indicação de Pietro Maria Bardi.
Ao retornar, tornou-se porta-voz de uma nova ordem e um dos responsáveis pela fundação de uma escola no Brasil. Não somente desta instituição, a ESDI, mas de uma escola do como se fazer design, seguindo os preceitos e postulados que lhe foram transmitidos durante seu período alemão.
Calçando sandálias franciscanas, pregava a disseminação da ideia moderna de design.

E seguiu carreira, formando em 1958 o primeiro escritório moderno de design no Brasil – o forminform (com Geraldo de Barros, Ruben Martins, Walter Macedo, e ainda o designer Karl Heinz Bergmiller, recém formado em Ulm). Defendendo radicalmente todo o ideário da HfG, que separava inteiramente o design da arte e do ofício artesanal, fez do seu trabalho de designer, arte, ratificada por sua sempre presente assinatura, e fez da tipografia e da construção sistematizada, o seu ofício. Um paradoxo de que, em sua característica assertividade e humor, nunca abriu mão.

Orbitando em torno das ideias mais à vanguarda da cena artística brasileira, foi convidado por P. M. Bardi a auxiliar na montagem da exposição de Max Bill realizada em 1951 no recém inaugurado Museu de Arte de São Paulo. Foi nessa ocasião que entrou em contato com a produção de Bill e seu potencial já repercutido no grupo concretista paulista, e que veio a representar revolucionário filão na arte brasileira.

Embora não tivesse participado da mostra inaugural do grupo Ruptura, a ele veio a associar-se em seguida para, posteriormente, abandonar qualquer intenção de desenvolver-se no campo autônomo das artes, concentrando-se no projeto de sinais, embalagens e sistemas de identidade visual empresarial, atividade praticada até seus últimos dias. E assim a história reservou-lhe o papel de condutor e consolidador das ideias concretistas para o efetivo plano institucional do design.

Ao longo do processo de instalação da ESDI, por sua ação direta, a nova escola definiu seu currículo e projeto pedagógico e novos modelos de atuação profissional foram caracterizados por alguns poucos. Dentre eles, Aloisio Magalhães, Ruben Martins, Ludovico Martino, João Carlos Cauduro e Gustavo Goebel Weyne. Em meio a esses, deu-se sua caracterização como figura modelar do designer visual, imagem a que se dedicou a consolidar nos anos futuros.

Mas em que consistiu sua atuação profissional? Qual a razão para tamanha permanência no tempo? Na verdade, o conceito moderno de identidade visual foi por ele inaugurado no Brasil. Critérios, abordagens, processos de trabalho foram definidos a partir da sua prática, na qual muitos iriam se mirar para sua própria construção profissional.
Sua expertise reflete-se na extensa e precisa relação de sinais e peças gráficas por ele desenvolvidas ao longo dos últimos 50, 60 anos. Essa produção, projetada com a precisão das referências que sempre lhe foram caras, como a modularidade e a progressão matemática de Fibonacci, revela sua crença na exatidão de uma percepção norteada pela geometria. Às referências construtivas tão bem enunciadas por Max Bill, agregava-se a abordagem a cada assunto que se apresentava, na busca de uma essência passível de representação visual dotada de clareza e precisão. Aí instala-se seu grande poder de síntese que, por sua vez, o transformam em símbolo de todo aquele processo de formação e da transposição para o cenário brasileiro das ideias gestadas em Ulm.
Seus inúmeros trabalhos evidenciam dois aspectos centrais à sua atuação como designer: a pertinência semântica de suas criações e a construção inequívoca de seus sinais. Inequívoca por não permitir que haja sequer a sombra de dúvida a respeito do signo criado. Estes apresentam-se ao observador como reveladores do seu próprio processo de elaboração. Alexandre acreditava de tal modo em uma argumentação racional absoluta, tanto em relação à interpretação dos dados do problema como em seu aspecto construtivo a partir das ferramentas anteriormente citadas que, em seu entendimento, a cada problema correspondia tão somente uma única solução – a solução – singular, como ele.

7 de maio de 2018
João de Souza Leite
Coordenador do Programa de Pós Graduação em Design