Cláudia Moreira Salles
é designer formada pela Esdi em 1978, tendo se radicado em São
Paulo, dedicando-se ao design de mobiliário. Recentemente teve editado
livro sobre seu trabalho, Claudia Moreira Salles Designer, de
autoria de Adélia Borges. Claudia concedeu esta entrevista ao "sinal"
por ocasião da aula inaugural que proferiu na Esdi, em 21 de março
de 2006.
sinal – Quando você
descobriu o que era Desenho Industrial, e por que resolveu fazer esse curso?
Cláudia Moreira Salles – Eu fiz uma viagem à Itália
aos 12 anos e, prestando atenção nos objetos do uso cotidiano
desde objetos de mesa a objetos de escritório percebi
que existia alguma coisa diferente do que a gente via aqui, que era essa coisa
do design nesses produtos. Comecei a me interessar pelo assunto a partir daí,
já que, na época, havia pouca interferência do design
nos produtos do dia-a-dia aqui no Brasil, e não havia praticamente
importação nenhuma. Então, eu soube que existia essa
escola de Desenho Industrial, fui a uma exposição sobre o tema
no MAM, e fui tomando contato com essa disciplina que eu pouco conhecia. Uma
amiga da minha mãe conhecia o Aloísio Magalhães, então
eu fui ao escritório dele e pedi para que fosse até a minha
escola para explicar aos alunos o que era Desenho Industrial, pois era uma
época próxima à do Vestibular, e a carreira era uma opção
que poucas pessoas conheciam. O Aloísio foi à minha escola,
fez uma série de projeções, e não havia ninguém
melhor do que ele para atrair as pessoas para essa possibilidade.
O que a Esdi significou
para você quanto à sua formação profissional?
A formação que a Esdi me deu foi essencial. Eu acho que a Esdi
é uma escola que faz o principal que uma escola deve fazer: ela te
ensina a pensar, a abordar um problema. Ela expande os seus horizontes não
só para aquela atividade específica, como também para
várias outras disciplinas. Quando você projeta algo, você
destina o seu produto a um grupo de pessoas que vivem em um determinado contexto,
que está, por sua vez, dentro de um contexto maior. Você está
projetando para um determinado tipo de produção que tem várias
implicações em torno. Daí a necessidade de se ter uma
formação aberta, saber pensar e abordar um problema. Isso foi
uma das coisas mais importantes que eu aprendi na Esdi.
Você estudou na
Esdi na década de 70. Foi um período conturbado politicamente,
porém com muitas iniciativas no campo do design, como o design social
e o design ambiental. O que você acredita que ficou mais sedimentado
desse período?
Naquela época, existia uma forte preocupação com o design
para a comunidade, ou seja, o design urbano, o design para escolas, para os
hospitais. Eu tive a oportunidade de participar de um grupo de estagiários
de um projeto de mobiliário escolar, então essa idéia
ficou muito forte em mim, apesar de eu nunca ter dado seqüência
a isso. Quanto à parte ecológica, era uma coisa que ainda estava
começando. O designer pensava na economia de materiais, mas isso era
feito por bom senso e por disciplina de projeto. A consciência ecológica
e a busca por materiais alternativos surgiram mais tarde.
Como você lida
com o fato de ser uma das poucas mulheres a trabalhar com projeto de produto?
(Risos) Olha, eu acho que talvez houvesse poucas mulheres da minha geração,
mas hoje a situação mudou muito. Eu tenho visto muitas mulheres
jovens fazendo design de produto. Em São Paulo, por exemplo, tem a
Jacqueline Terpins que trabalha basicamente com vidro e já trabalhou
com madeira, e também a Luciana Martins, que trabalha em conjunto com
Gerson Oliveira. Eu gostaria que mais mulheres trabalhassem com produto, mas
isso já mudou muito.
Projeto de produto foi
sua primeira opção desde que você entrou na Esdi?
Sim. Mas, como eu falei, eu achei que ia trabalhar só na produção
em série, com trabalhos de design para a comunidade. Ou seja, trabalhos
que atingissem um número maior de pessoas e não fossem apenas
bens de consumo para o uso doméstico.
E como se deu essa transição?
Essa transição foi acontecendo conforme as oportunidades foram
aparecendo. Eu trabalhei no IDI (Instituto de Desenho Industrial do MAM-Rio)
em um projeto para mobiliário escolar. Aí, quando fui pra São
Paulo, fiz um projeto de mobiliário escolar junto com o Pedro Pereira
de Souza, mas já para uma escola de uma indústria. Depois, fui
trabalhar na Escriba, que já era uma empresa comercial de mobiliário
para escritório. Quando saí da Escriba, fui pegando trabalhos
sob encomenda. Foram coisas que foram acontecendo. É claro que não
é assim: "ah, aconteceu". É claro que aconteceu, mas
foi algo que fez sentido para mim naquele momento, que eu tive prazer em fazer.
Eu gostei de trabalhar com mão-de-obra artesanal. Acho que mobiliário
é uma coisa que me diz muito. Eu gosto de móveis, gosto de tudo
que está dentro de casa, de ficar em casa (risos).
No prefácio do
livro da Adélia Borges [Claudia Moreira Salles Designer],
Sérgio Rodrigues a descreve como alguém que conhece muito bem
a madeira. Por que a escolha desse material?
Eu o escolhi primeiramente por ser um material maravilhoso, um material vivo.
Ele é diferente a cada situação, cada madeira se presta
a um determinado tipo de projeto. É um material que, se você
extrai de um modo correto, você tem menos impacto ambiental porque,
normalmente, as indústrias madeireiras são pouco poluentes.
Além disso, você consegue usar mão-de-obra, que é
uma coisa importante em um país com desemprego. Então, foi um
material que não só foi fazendo sentido em todo um contexto
do mobiliário, e mesmo no contexto ambiental brasileiro, como também
fez sentido pra mim como relação afetiva com o material.
Você acha que nos
dias de hoje os arquitetos ainda dominam o campo do mobiliário?
Olha, eu acho que sim. Existem muitas pessoas que são formadas em arquitetura
e que fazem mobiliário. Mas acho que isso está mudando.
Você acha quer
isso pode ainda ser um ponto de dificuldade para os novos designers?
Eu acho que o designer tem uma abordagem diferente da abordagem do arquiteto.
Muitas vezes você sente qual produto que é resultado do trabalho
de um arquiteto, que é diferente do trabalho do designer. O que acontece
muitas vezes é o seguinte: muitos arquitetos quase que emprestam seus
nomes para um produto. Ou seja: eles fazem o conceito de um produto, desenvolvem,
fazem um desenho, que é um trabalho quase que formal, e então
as equipes dos designers que trabalham nas indústrias desenvolvem e
viabilizam o trabalho para eles. Isso acontece muito. Aí, a indústria
vai vender um produto daquele nome, daquele arquiteto.
Você considera
o Brasil um mercado promissor para o design, especialmente de mobiliário?
Eu acho que o Brasil é um mercado bom, importante para o mobiliário.
Acho que as pessoas prestam cada vez mais atenção no design.
As pessoas cada vez mais ficam em casa. Então, a casa passou a ser
um símbolo não só de conforto como também, muitas
vezes, um símbolo de status ou de identificação. "Quem
sou eu? Ah, eu sou aquele cara moderninho que compra os móveis de vanguarda".
"Ah, eu não, eu sou mais conservador, minha casa é confortável,
de boa qualidade". Quer dizer, as pessoas passaram a se preocupar com
o que a casa delas representa. Então, eu acho que isso é um
fenômeno de mercado, e que tem também mais gente fazendo design,
mais pessoas interessadas em promover e comercializar esse design. E o design
de mobiliário, talvez até porque você consegue muitas
vezes produzir coisas de razoável qualidade com baixa tecnologia, tem
mais campo de trabalho.
E o que você recomenda
aos novos designers que estão se formando e pretendem trabalhar nessa
área de mobiliário?
Primeiro: se você gosta de mobiliário, você tem que procurar
os caminhos para ter a sua expressão naquilo que faz. Você vai
sempre fazer melhor uma coisa que é a sua cara. Eu acho que tem justamente
que se investigar caminhos de novos materiais e de processos, deve-se sempre
olhar muito em volta, olhar para as coisas, tentar saber como elas foram feitas
e por que elas foram feitas. Todo esse trabalho, essa atitude de investigar,
de olhar em volta, é muito importante. Então, acho que isso
talvez seja a coisa mais importante na formação além
da formação acadêmica que a escola dá. E aí
é procurar. Olha, procurar tem vários caminhos, tem que investigar
muito. Hoje em dia, tem mais indústrias empregando as pessoas, buscando
trabalhos de designers, querendo exportar. Existem vários prêmios
em todo país que as pessoas devem participar e se inscrever, independente
do prêmio. Eu acho que participar dessas coisas é uma oportunidade
pra desenvolver seu produto, colocá-lo no meio de outros produtos,
tentar ter um feedback de como aquele produto foi recebido entre as pessoas
do júri. Então eu recomendo que você se exponha e olhe
em volta.
Entrevista realizada por Fernanda Viana e Lia Brandão, estagiárias
do programa "Esdi: Janelas Abertas", e publicada como anexo ao "sinal" 150
(07 a 12.04.2006)