Visita do Prof. Jörg Hundertpfund, da Fachhochschule Potsdam, à Esdi

Jörg Hundertpfund, que leciona na Fachhochschule Potsdam, fundada em 1991, desde a criação do departamento de Design de Produto em 1993, é responsável por disciplinas de metodologia, conceituação e desenvolvimento de Projeto de Produto. Ele trabalha ainda em seu próprio escritório de design, aberto em 1989. Sua experiência profissional inclui a atuação como free-lancer para escritórios como o Produktentwicklung Roericht, em Ulm (Alemanha). Ele estudou design na Hochschule der Künste, em Berlim, onde reside.

A palestra ministrada por ele na Esdi, no dia 15 de setembro, forneceu detalhes sobre o funcionamento da Fachhochschule Potsdam. O curso de design nesta escola compreende três semestres de "ensino básico" e mais quatro ou cinco semestres de estudo avançado, quando os alunos costumam enfatizar uma das três áreas oferecidas: Design de Produto, Design de Comunicação ou Design de Interface. O professor ressaltou que, durante todo o curso, os estudantes podem escolher disciplinas de quaisquer das três áreas e montar sua grade horária. A oferta varia a cada semestre, de acordo com os projetos propostos pelos professores. O departamento de Projeto de Produto conta com matérias como Design de Produto e Design Ambiental, Design de Produto e Sistemas de Design, Interiores e Exposições, e Design de Produto e Mídias Digitais. Em Design de Comunicação, podem ser escolhidas disciplinas como Tipografia, Ilustração, Design de Tipos, Design Gráfico, Identidade Corporativa e Propaganda. Entre as opções do departamento de Design de Interface, os alunos podem optar, por exemplo, por Representação Digital e Programação ou Percepção Projetual. Entre as oficinas oferecidas na escola estão laboratório de vídeo, estúdio e laboratório fotográficos, escultura, modelagem, desenho de modelo vivo, prototipagem, serigrafia, encadernação e oficina de tipos móveis, considerada uma espécie de museu pelo Prof. Hundertpfund, já que é pouco utilizada.

O departamento de Design tem cerca de 400 alunos, dos quais 50 % são mulheres e 10%, alunos estrangeiros. O sistema de admissão da escola tem uma característica singular: os interessados se inscrevem e recebem duas opções de tarefa para uma apresentação de dez a quinze minutos para uma banca da escola. Todos os inscritos são avaliados individualmente em um contato pessoal. Para o primeiro semestre de 2003, por exemplo, foram entrevistados 1335 candidatos, dos quais 76 ingressaram no curso.

A formação pode ser complementada pelo mestrado que a escola de Potsdam oferece desde 2003. Para cursar a pós-graduação, os candidatos devem apresentar uma proposta de tese a ser elaborada, um portfólio e ter razoável domínio da língua alemã. Além de desenvolver um projeto com o acompanhamento de dois professores, os mestrandos cursam algumas disciplinas específicas do mestrado. Ainda durante a palestra, o professor lamentou que o foco da escola de Potsdam seja pouco voltado para a pesquisa. Ele informou que da equipe de cerca de 40 profissionais, apenas oito são responsáveis por atividades científicas.

O Prof. Hundertpfund realizou também um workshop de cinco dias com alunos da Esdi, com o objetivo de discutir questões ligadas à identidade cultural no design, por meio da análise de produtos de forte representatividade cultural. A intenção do professor é dar continuidade ao workshop virtualmente, com o uso de webcams e a criação de um grupo na internet, que seria denominado "Brazilian love afair" ou "Brazilian design affair". A conferência GraficEurope 2004, que será realizada de 14 a 16 de outubro, em Berlim, abordará, entre outros assuntos, o valor da identidade local.

Antes de seu retorno para a Alemanha, o Prof. Hundertpfund conversou com a equipe do "sinal", que pôde obter informações sobre sua carreira como designer e suas impressões sobre a visita à Esdi. Está reproduzido abaixo um trecho da entrevista:

sinal – Esta é a primeira visita ao Rio de Janeiro? O que você achou da cidade?

Jörg Hundertpfund – É a primeira vez que venho. O Rio é maravilhoso e o oposto disso, ao mesmo tempo. Já vi pobreza e miséria em outras partes do mundo, mas aqui me comoveu ver tantas pessoas na rua, perdidas, abandonadas. Existe um contraste enorme com toda a beleza.

Qual foi sua primeira impressão sobre a Esdi?

Fiquei impressionado com o fato de a Esdi ser tão pequena. É interessante ver como, mesmo tão pequena, realiza tanta coisa. A atmosfera daqui também é muito agradável. O problema é se tornar agradável demais.

Qual é a sua opinião sobre o design brasileiro?

Não pude ver muita coisa, mas notei uma influência de Ulm. Estive na loja do Museu de Arte Moderna (Novo Desenho), mas não sei se ela é muito representativa. Tinha muitos objetos artesanais, peças únicas; coisas como as peças dos irmãos Campana, que trabalham na esfera "state of the art". Vi poucos objetos industriais.

Existem possibilidades de atuação para um designer brasileiro no mercado alemão?

No que diz respeito à capacidade, não vejo problema algum.


Entrevista realizada por Fabiola Sposito Gerbase, estagiária do programa "Esdi: Janelas Abertas", e publicada como anexo ao "sinal" 78 (24.09 a 01.10.04)