Depoimento do designer e professor da Esdi João de Souza Leite
sobre Aloisio Magalhães, publicado como anexo ao "sinal" 231
(01 a 09.11.07), em homenagem aos 80 anos de nascimento de Aloisio, comemorados em
5 de novembro de 2007.
Aloisio Magalhães (1927-1982) foi um paradoxo. E, assim, cultivou com
muita atenção suas próprias contradições.
Acreditava, e certamente era verdade, ser dali que extraía sua vitalidade
e persistência.
Foi paradoxal ao participar da fundação da Escola Superior de
Desenho Industrial, em 1962, posicionando-se contrariamente à transposição
parcial do modelo da Hochschule für Gestaltung de Ulm – sendo voto
vencido – ainda que viesse a reconhecer, tempos depois, a importância
do diálogo mantido entre aquela tradição de ordem racional
com a aparente desordem e malemolência brasileira, bem encarnada em seu
ser pernambucano.
Paradoxal foi ao se valer da sistematização dos programas de
identidade do suíço Karl Gertsner e do americano Paul Rand na
condução de seus projetos de símbolos e sinais empresariais
e, simultaneamente, utilizar-se da geometria não como partido de construção
formal, mas como instrumento viabilizador de seu gesto natural e mimético.
Grande parte de seus sinais revelam o traço livre do desenho tornado
símbolo através do instrumento regulador do desenho geométrico
e da construção modular.
Paradoxal o foi também na medida em que defendia em seus projetos de
design uma perenidade de linguagem que ultrapassasse qualquer condição
efêmera e se perpetuasse no tempo, enquanto em paralelo reconhecia o
valor da condição temporal das manifestações culturais.
Do mesmo modo o foi, ao defender essa espécie de universalidade dos
símbolos, tão sustentada pela lógica internacionalista,
paralelamente à defesa, intransigente, de que "o universal não é o
igual".
Aloisio Magalhães fez do design um instrumento de pensamento – dizia, "sou
um projetivo" – no qual a atenção maior era dada ao
objeto do seu projeto, não ao design. Poderia, talvez, hoje parafrasear
Oscar Niemeyer, embora não fosse esse o arquiteto intelectual da sua
interlocução, este o foi Lúcio Costa, Doutor Lúcio,
com sua visão abrangente: não é o design que importa, é a
vida que importa.
Seu caminho em direção ao trato da cultura brasileira, após
16, 17 anos de dedicação ao design, assim o demonstra. Interessava
a Aloisio os fazeres populares e seus múltiplos significados para o
povo brasileiro, interessava-lhe as expressões gráficas de todas
as camadas da população, a relação direta entre
meio-ambiente, vida comunitária e expressão cultural, a relação
entre o fato da cultura e a possibilidade educativa ali encerrada. Seu interesse
era múltiplo.
Faleceu cedo, muito cedo – 55 anos incompletos – apontando, por
diversos caminhos, ações que visavam harmonizar as forças
produtivas deste país. Este, o seu legado, o olhar projetivo, investigativo,
sobre o que verdadeiramente importa: o que fazer diante de tanta riqueza
e tanta miséria?
João de Souza Leite